Cotidiano & memória

Estou numa preguiça braba.

Não sei sobre o que escrevo.

A quarta-feira chegando e eu, sem saber sobre o que quero falar. Ou escrever.

Nesses casos, o melhor mesmo é começar dizendo o que me vai bem. Ou mal. A preguiça. Saudades de Humberto Eco, quando eu acreditava que preguiça e ócio criativo eram uma e a mesma coisa.

Na minha meninice e adolescência eu era o sinônimo da preguiça. O trabalho que ninguém queria fazer era jogado pra mim. Pra curar a preguiça. Não curou.

Tem coisas que continuo sem querer fazer. Rotinas que exigem perseverança, por exemplo. Inclusive soltar uma crônica toda quarta-feira de Deus. Ou do Diabo. Quando me sento na frente do computador, as ideias fogem. Como agora. Tem muita coisa acontecendo – prisão domiciliar de Bozo; a fome como arma de extermínio em Gaza; o tarifaço de um certo laranja podre.

Num resumo rápido, estou bastante orgulhosa de nós, brasileiros, como um todo. Isolando e esquecendo a presença vociferante do rebanho mugente – nas redes, nas ruas, na mídia.

Não sei se o tiro laranja saiu pela culatra, ou se foi o dedo do destino, o acaso, ou resultado consequente previsto ou, ainda, uma bola invertida como só o Fio Maravilha sabia fazer. Dá pra pensar que se Lula não fosse político por vocação, seria um bom artilheiro para a seleção.

Numa terra de pouca memória, alguém ainda se lembra de Fio? Aquele que só não entrava no gol, com bola e tudo, porque tinha humildade, como dizia Jorge Ben Jor?

Voltando aos presentes e nefastos acontecimentos. Andei lendo as entrelinhas dos ditos e escritos laranjais.

A suspensão do processo contra os líderes do golpe começado em 2015 – Bozo principalmente – com a futura, e não concretizada (felizmente), detenção do poder pela extrema direita, parece ter sido apenas uma bandeira acenando para a indexação de apoios locais. No fundo, mas nem tão profundamente, se lê a mensagem de apropriação de minérios e terras raras, a continuação das privatizações, a não regulação das big-techs – com favorecimento estadunidense, é claro.

Não esqueçamos do necessário alinhamento à política externa dos EUA.

Mas, comé qui é mermo, essminino? É só isso que você quer? Vai ser preciso raspar?

Esse continuum de pressões, me lembrou o ritual nordestino da fincada do mastro no dia do Divino Espírito Santo. Não que a fincada do mastro seja similar às pressões atuais.

Mas depois você me dará razão.

Um pouco de história. O ritual da fincada do Mastro do Divino é um ritual masculino. Os homens do lugar colhem um mastro na mata e, a depender da consciência ecológica, deixam plantada uma muda para uma nova árvore.

Limpo dos galhos e folhas, o tronco é levado em procissão para a cidade. Lá o mastro é entregue aos cuidados das mulheres. Limpo, enfeitado com flores, fitas e muitas velas acesas ao redor, recebe visitas e afagos durante toda a noite.

Dia seguinte. Voltam os homens.

Levam o mastro nos ombros, em procissão. Junto vão o Imperador do Divino, as autoridades civis, as entidades religiosas de matriz africana. De cristãos, só os católicos. E vivas à religiosidade popular.

Vez em quando um grita: Rabeia! Os carregadores, giram o mastro num círculo. Nessa hora, sai de baixo!

Em frente à Igreja de Nossa Senhora do Rosário, patrona dos homens pretos, o mastro é fincado. No topo, colocam a Bandeira do Divino e todos os homens, de mãos dadas, fazem uma oração. A fé transborda e me atinge em cheio. A pele arrepia e o cérebro retorna a milênios atrás, quando o Falo era glorificado como símbolo de proteção e do poder fecundador.

Mastro fincado, as mulheres pedem proteção ao Falo Divino. Com rezas, flores e velas. Ao Mastro se toca reverentemente. Ali, se faz presente o poder do Sagrado.

Voltando aos presentes acontecimentos sócio-políticos-econômicos, fico com a certeza de que estamos protegidos e fortes contra as mazelas do mundo. E dos laranjas.

Certamente os EUA não têm tamanhos falos.

Nós temos.

com bons argumentos de preferencia! Não fique aí parade! Critique, ou elogie, se for o caso. Ou comece uma discussão.