Cotidiano & memória. A fala nomeia e traduz o mundo e faz a realidade. A fala da mulher tem poder inerente à sua existência.
Quando fico muito tempo sozinha em casa, tenho longos e insatisfatórios papos com Koll. Antes era com Elijah. Mas, de uns tempos pra cá desandei a escrever. Mais que antes. Antes era não cem por cento esporádico, mas era aos arrancos. Entre um trabalho e outro, entre um cansaço da vida e outro, eu desandava a escrever. Hoje, escrever é minha rotina de trabalho.
Não faz muito tempo que eu apagava o escrito, ou escondia, por medo de que quem lesse me visse como de fato eu era. Quanta bobagem! Ficar velha tem esse efeito: tira noventa e nove por cento da vergonha de me mostrar como sou – romântica, impulsiva, sonhadora, ingênua – e acrescenta outros tantos por cento de licença para o bom e velho fod@-se.
Andei lendo algumas coisas. No post passado, falei das minhas Palavras. Assim, maiúscula, porque minhas são. Percebo nas minhas Palavras, um poder maior que eu – o poder da fala – mesmo quando escrevo, é minha fala que se faz presente nos signos que registro na tela.
Nós, mulheres, não temos falo. Mas temos a fala. Veja você: um simples rabisco e o poder do falo se corrompe, tornando-se a voz que fala Palavras – suas e de outros – com sentido, com ternura, com desejo, com tesão, com fervor, ou com ódio. Esse é nosso poder. Temos a fala. É pela nossa fala que o ser nascido se faz: homem, mulher, cis, trans, bi e o que mais for.

Tem muita gente que diz o que digo e melhor. Leio e ouço o que dizem. Refletem o que penso. Então sei que não estou a falar bobagens.
Isso tudo veio por conta de duas coisas que andei pensando. Uma delas é uma mulher que conheço desde sempre – minha irmã. A outra coisa é o falo do Divino.
A mulher, pouco ri, fala baixo, não diz palavrões, não gargalha nunca. Sua voz é cheia de silêncios e muitas vezes negada. Já o falo… é do Divino, né? Cultuado em muitas tradições sertanejas, enfeitado com flores e fitas. É a quem a mulher sertaneja muitas vezes pede proteção e força. Já a mulher… É… Nós mulheres ainda temos que lutar muito pelo nosso direito à fala.
Entende-se que o falo, seja por ser falo, ou por ser do Divino, tem um poder que lhe é inerente. Freud explicou isso direitinho. Não concordo muito com ele quando ele sugere que temos inveja do falo. Acho que nossa fala tem tanto poder quanto o falo. Talvez mais? Você disse isso? Concordo. Nossa fala tem tanto poder que nos calaram. Na minha infância, era feio gargalhar ou dizer palavras de baixo calão. Mas, aqui pra nós, não é libertador jogar a cabeça para trás e soltar uma gargalhada que sai do mais fundo do peito? Concorda comigo? Vá lá. Vamos rir juntas do poder do falo.
Não se engane, não. A fala também tem um poder que lhe é inerente. É a fala que traduz, que nomeia o mundo e cria a realidade. O homem fala porque lhe damos a voz e as palavras. Indo mais longe: a realidade existe porque a nomeamos. Porque a realidade para existir precisa ser nomeada.
Talvez você não goste das minhas palavras. Talvez você encontre algum sentido nelas.
Eu gosto delas. Porque são minhas. Dizem o que penso. Posso enfeitá-las ou deixá-las nuas, como vieram ao mundo. Não importa.
Receba essas palavras da forma como as envio – com ternura – e espero que sua fala transborde com seu desejo de criar realidades outras, melhores que as que sofremos hoje.
Mulher! Use sua voz. Bjoooo

com bons argumentos de preferencia! Não fique aí parade! Critique, ou elogie, se for o caso. Ou comece uma discussão.