Cotidiano & memória. No mundo caótico e duro em que vivemos, precisamos muito das Palavras boas. Aquelas que embalam nossos sonhos, nos acalentam e oferecem conforto.

Um dia aprendi a ler. E me apaixonei. Foi como descobrir uma passagem secreta para um outro mundo.

Amei cada Letra e seus mil usos. Amei as Palavras escritas, a forma como seus desenhos no papel diziam coisas só pra mim. Saboreava os sons que elas faziam na minha boca — ora doces, ora amargos. Brincava de classificá-las em ricas, ou pobres; coloridas, ou sem cor, dependendo de quem falava e de quem ouvia. Era incrível saber que Palavras diferentes serviam para indicar uma mesma coisa; ou que uma mesma Palavra era usada para falar de coisas diferentes.

E, para além das Palavras, o mistério do sentido. O que elas me diziam quando eu as juntava, arrumando de um, ou de outro jeito que mudava tudo.  Que mistérios e segredos as Palavras escondiam e me revelavam? Quantos lugares belos, quantos infernos elas podiam me trazer, só com a ordem das Letras?

O que mais poderia fazer uma criança solitária?  Sonhar.

E eu sonhava.

Sonhava com as Palavras que um dia seriam minhas.

Minhas Palavras! Elas teriam doces sons. Seriam alegres, perfeitas pra brincar e rir. Seriam Palavras amigas, dessas que confortam o coração e aquecem os dias frios.

Minhas Palavras! Eu poderia — quem sabe, quando eu fosse grande — inventar Palavras novas que somente eu saberia o significado. E eu as daria ao mundo. E, talvez, as gentes também pudessem inventar as suas e distribuí-las até que todos tivessem as Palavras comuns e as novas, inventadas, para dizer e para desenhar.

No meu sonho, todas as Palavras seriam ricas e coloridas. Mesmo aquelas que dizem coisas tristes teriam beleza e perfeição, para que fossem também amadas.

Um dia, percebi que as Palavras também podiam machucar. Não por culpa delas. Palavras não são culpadas pela dor que provocam. Algumas pessoas só não aprenderam a usá-las, ou — talvez — sejam mesmo ruins de alma. Mas sempre achei que as Palavras deviam sofrer quando fossem usadas pra ferir.  Imagino que, se pudessem, ficariam presas na boca, esperando um uso mais gentil.

Quando criança, eu gostava de desenhar as Palavras com capricho, para que ficassem bonitas. Porque todas elas, de alguma maneira, eram todas minhas. Se eu falava uma Palavra ela virava minha, porque fui eu quem a disse. Assim era que a gente ficava rico de Palavras. Falando. E desenhando com lápis no papel, ou no chão com uma varinha.

Hoje, lanço minhas Palavras nessas telas brilhantes, enquanto meus dedos batucam apressados num teclado cheio de Letras e as vigio todas, para ver se elas estão dizendo, mesmo, o que pensei. Depois, mando-as para o mundo, para que outras pessoas as leiam e fiquem com elas.

Acho que sempre enviarei Palavras ao mundo. Porque acredito que elas podem tocar outros corações e mentes. Se forem bonitas o suficiente, se forem boas, se forem amigas. É possível que, assim, outras pessoas também se apaixonem por elas. E as multipliquem.

Mesmo Koll — que não fala nada — gosta de ouvir boas Palavras. Quando as digo, embalando as sílabas com cuidado e olho seus olhinhos esbugalhados, ele se senta nas patas traseiras e fica atento ao que digo. Certamente não compreende nada do sentido, mas, ainda assim gosta delas. Eu também.

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