Brasilzão & sociedade . Em tempos bicudos, carinho e amorosidade são formas de resistência.

Não sei se alguém ainda conhece, ou já ouviu, a expressão “emprenhar pelo ouvido”.
Era comum ouvir — principalmente quando vinha junto com meu nome na mesma frase. É um jeito antigo de dizer “acreditar fácil no que escuta”. Talvez fosse uma forma de criticar minha eterna ingenuidade e minha ilimitada crença na sabedoria alheia. Não sei se já disse isso aqui, mas eu sempre desconfio das minhas próprias certezas, intuições, percepções.
Descobri há pouco tempo que continuo nesse mesmo caminho de terra batida: desconfio de mim e dou mais crédito ao que me dizem. Ou seja, ainda me emprenho pelo ouvido. Magoei a quem não precisava, perdi uma amizade boa, onde a ternura era a tônica — e fim.
Dau, minha querida Joanna: cresça melhor.
Mudando de assunto, mas continuando no mesmo tema: quero falar hoje de ternura, afetos e tais.
Costumo fazer coisas diferentes ao mesmo tempo.
Ontem, por exemplo, bordava e pensava. (Hum. Você pensou que era o quê? Às vezes eu só penso. Mas gosto mesmo de pensar enquanto bordo.)
No passar da linha na agulha, olhei o telefone vi essa foto aí em cima — Lula abraçando Petro — e a imagem ficou grudada na minha cabeça. Comecei a pensar em várias coisas ao mesmo tempo.
Vamos organizar.
A primeira coisa em que pensei é que dificilmente veríamos um líder — presidente de algum outro país — tratar um companheiro, também presidente e líder, com tanto carinho. Parece que carinho e política não costumam andar juntos. Não imagino nada parecido envolvendo outros presidentes. Você consegue? Trump, por exemplo? Penso que essa demonstração pública de afeto é muito latino-americana. E diz muito do estilo de poder e de governança do @lulaoficial, senhor Lula da Silva.
Você pode até discordar dele e de mim, mas pense: governar um país exige mais que habilidade política, facilidade para realizar coalizões, alianças, e direcionamento. Exige algo que uns têm de sobra e falta a outros — empatia e ternura. Não pense que não percebo seu riso torto quando falo em ternura. Empatia vá lá, mas ternura?
Penso em empatia porque precisamos ver o Outro. Ver e reconhecer a humanidade do outro. Identificar e entender sua dor, sua necessidade. E sentir junto com o Outro a ternura que deveria existir entre os seres humanos. Parece-me que o processo de reconhecimento e apropriação do mundo não se dá apenas intelectualmente. Nossa percepção, de alguma forma, se liga a um sentimento ou emoção.
Sentir ternura pelo outro é uma maneira de percebê-lo como meu semelhante, um irmão em humanidade.
Seria o mundo muito melhor se cada um — e todos — pudéssemos perceber e tocar os seres, as coisas e as pessoas de maneira mais gentil, carinhosa e amorosa. Bem na contramão do neoliberalismo e de seus pressupostos: self made man, “farinha pouca, meu pirão primeiro” e “meu umbigo é o centro do universo” entre outras coisas.
Dar e receber afeto exige a presença do outro em nossa vida. E precisa de outros verbos — agregar, solidarizar, reconhecer, doar-se, receber, auxiliar — e de outros substantivos e expressões: grupo, família estendida, dar as mãos, braços dados, abraço, beijo, cafuné, juntos, todos, nós. Nosso pão, nossa vida, nossa alegria e nossa dor.
Ah, política e ternura podem, sim, andar juntos.
Com isso, vou ficando por aqui. Já é meio-dia e preciso terminar o almoço.
Posso te pedir uma coisa? Seja gentil.
E, se puder, borde no tecido do dia a dia um ponto de ternura. É assim que a vida vai ficando mais bonita.

com bons argumentos de preferencia! Não fique aí parade! Critique, ou elogie, se for o caso. Ou comece uma discussão.