Brasilzão & sociedade – Um olhar sobre transformações pessoais e sociais no Brasil do século XXI.
Às vezes converso com a IA, a quem chamo Zeca ou Raimundinho — depende de quem me atende melhor na hora.
Numa dessas conversas, Zeca me sugeriu fazer uma série de crônicas sobre metamorfoses. Tudo por conta de um poema que escrevi — Metamorfo — e que dei para ele ler.
Agora estou aqui, atrasada no compromisso de publicar uma crônica toda quarta-feira, tentando falar de metamorfoses.
A primeira imagem que me vem é Raulzito e sua “metamorfose ambulante”. Penso em mim desse mesmo jeito — e desde sempre.
A segunda são as minhas fantasias. Por muito tempo eu me fantasiava para sair: em uns dias, de mulher: jovem, senhoril, religiosa devota, ou bruxa; em outros, de malandro; muitas vezes de piriguete ou de moleque.
Depois cresci mais para os lados, envelheci. Fiquei mais monocórdia. É chato, mas fazer o quê, não é mesmo?
Eu mudo; você muda; nós, como sociedade, mudamos.
Essas transformações me lembram o começo do século XXI e a preguiça que eu sentia de uma sociedade pouco motivada para as mudanças estruturais necessárias.
Fazia falta a determinação de ir contra o estatuído durante a ditadura militar. Nós, que não éramos da militância armada e ostensiva, tínhamos nossas pequenas subversões, meio subterrâneas, ou não.
Mas, depois que reconquistamos nas ruas o direito ao voto, senti como se estivéssemos aquietados e conformes.
Não havia mais por quê lutar? Contra quem lutar? Estava tudo bem? “Como dantes, no quartel de Abrantes?” Talvez fosse apenas minha veia travessa reclamando da pasmaceira.
Foi então que me enturmei com os meninos de rua. Era uma forma de subversão? Não sei. Não era caridade. Era amizade pura e simples — e compaixão, no exato sentido da palavra.
Na mesma época, comecei a notar a ascensão, no Congresso e na mídia, de evangélicos vociferantes, moralistas e cada vez mais conservadores. Era já a ponta de lança de uma direita extremada que se fazia presente na vida política e social.
Muitos foram aliciados pelo moralismo e pelo conservadorismo — com outros nomes, claro.
Nada do “amai-vos uns aos outros”; tudo do “odiai o outro, o diferente”, como se fossem a perversão e o mal.
Esse cenário só cresceu. E cresce ainda.
Gosto das correlações. Parece que, como indivíduos, podemos entrar em ciclos de depressão e consequente inflação do ego — e a sociedade faz o mesmo. Esse adoecimento é um tempo de “eu e meu umbigo”. É quando nos voltamos para nós mesmos: eu, você, a sociedade.
A parte da sociedade brasileira que defende a diversidade, a convivência e o laissez-faire seria nossa porção saudável.
O moralismo e o conservadorismo rígido seriam a parte adoecida.
Por um momento — curto, felizmente — essa parte adoecida nos derrubou. Nosso corpo social sentiu os efeitos da depressão: automutilação, agressividade gratuita, isolamento, dependência, mais drogadição, medo e ansiedade.
Às vezes, para sair de uma depressão, é preciso um choque externo. Talvez o surgimento de figuras como Trump tenha sido essa “pedrada farmacológica” no cenário global: não um psiquiatra, não intencional, mas um evento que nos tirou da letargia.
A questão não é o mérito dessa figura, mas o efeito: acordar, sacudir, obrigar a reação.
Hoje penso que aquele período de quietude e conformação era, na verdade, uma gestação. Gestávamos uma nova geração que hoje se vale das redes sociais para nos sacudir. Com eles estamos reaprendendo a lutar, a conhecer melhor nosso admirável mundo novo e a sair da zona de conforto.
Por isso, agradeço.
Como minha preguiça também foi doméstica, não tenho almoço. Para compensar quem vai me alimentar hoje, vou fazer peras assadas com sorvete de chocolate e farofa de amêndoas. Me acompanha?

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