Cotidiano & memória

Na verdade, não sei o que me “bole por dentro” hoje.

Koll me arranha as pernas e tenho que pegá-lo no colo, porque é carente. Um bebezão peludo, carente e fedido. Ele não percebe sua própria realidade. Como eu, que sei que estou confusa! Sinto que estou confusa! Sinto mesmo!

Estou no meio de um furioso redemoinho mental que ainda não me permitiu parar para apreciar devidamente o julgamento do século. O problema dos redemoinhos é a quantidade de sujeira que carrega num rodopio louco para depositar em outro lugar.

Talvez seja por isso que ando tão atrapalhada com as muitas coisas que inventei fazer ao mesmo tempo.

Pelo menos, agora, depois de uma sessão de análise, duas noites cheias de sonhos preditivos e pósditivos, acho que sei o que está acontecendo comigo. Levantando a poeira, os ciscos e a sujeira acumulados por dias, ou anos, ou décadas.

Se você nunca teve um redemoinho na sua vida, talvez seja o momento de começar a fazer um.

Começando pelo começo. É o melhor modo.

Ando planejando fazer muitas coisas. Culpa do psiquiatra que me deu uma tijolada e me tirou de vez da pasmaceira. Tenho uma programação de atividades pra cumprir e elas começaram a se embolar no meu meio de campo.

Mais cedo estava ouvindo Chico cantar Bom tempo. Depois ouvi Flavio José dizendo se avexe não…

E uma coisa puxa outra – acho que já disse isso aqui. Mas é a mais pura verdade.

O que puxou foi uma lembrança de um dia andando pelo subúrbio e a visão de um grupo na laje, num churrasco animado a cerveja e, possivelmente, um chupa-molho na brasa.

Naquele dia, lembro do meu sentimento de inveja da pura alegria do grupo. Certamente teriam uma vida igual, ou mais difícil que a minha. Um trampo que é apenas o que pintou no momento, não uma escolha; um buzão lotado no começo da manhã e no começo da noite; a marmita fria; o caraminguá contado para o PF. Mas no fim de semana, comemoravam a vida como se fosse o último — ou o primeiro — dia.

Alegria genuína, pensei. Inocente. No sentido de não ser necessária nenhuma consideração mental para existir.

Na comparação saí perdendo. Não que não tenha alegrias. Tenho muitas. Mas me falta o dar-me sem receio e sem medidas ao saboreio da vida.

Minha inveja também me deu o que pensar.

Quando e onde perdi a espontaneidade? Onde guardei o riso solto e sem regras? Que fim levou minha ingênua aceitação da vida como dádiva?

Penso muitas vezes que tem me faltado o contato com as dores do mundo. Faz um bom tempo que não uso transporte público, nem ando nas periferias ou nas quebradas do centro da cidade velha. Isso me distanciou do outro e do que me dava a medida exata do que é a alegria de estar viva. Acabei por assumir minha classmediazice.

Mas, voltando ao meu redemoinho particular, creio que parte do cisco foi depositado no colo paciente da minha terapeuta. Agradecida!

O que não foi lá colocado foi meu desejo de ir além dos muros com que cerquei minha alegria.

Dentre as coisas que o redemoinho levantou do chão da minha alma, estava lá esquecido, empoeirado, o desejo de soltar minha voz.

Cantar como se não houvesse amanhã (frase feita, eu acho). Num boteco de esquina, uma roda em torno de um violão, minha voz desafinando (desculpa, aê) a todo volume.

Sinto falta da noite. A noite que não é só descanso. É também a possibilidade de encontros e, porque não, desencontros.

É isso! Catarse.

Catar a sujeira que Koll faz na sala, também.

com bons argumentos de preferencia! Não fique aí parade! Critique, ou elogie, se for o caso. Ou comece uma discussão.