Cotidiano & memória

Ontem tive mais uma sessão de terapia.

Tenho a mania de me analisar desde sempre. Anos atrás, dizia com frequência que não confiava nem em mim. E por boas razões. Nunca sabia o que me ocorreria ser ou estar no momento seguinte.

Cresci — não apenas em idade, mas em experiência. Hoje já confio em mim, mas com ressalvas. Continuo sem saber, ao certo, o rumo que minha alma tomará no instante seguinte. Coisas raulzísticas. Como ele, prefiro ser essa metamorfose ambulante.

Pensando bem, e sem culpa ou modéstia, não sei como meus filhos saíram tão sãos. Mérito deles mesmos. Eu sei, eles sabem.

Mas, voltando às metamorfoses e à terapia.

Passei muito tempo sozinha. Um dia, culpa do azar, do destino ou da idade mesmo, descobri que queria mais da vida. Li, em algum lugar — e não sei quando — que não basta um tipo de amor na nossa vida. Precisamos de família, amigos e amantes.

E é justo aí que o bonde enguiça. De descoberta em descoberta, acabei entendendo que preciso mais que a família para as trocas de atenção, carinho, broncas etc.

Fuçando nos escritos antigos, descobri também que essa metamorfose vem acontecendo há um bom tempo. Porque tudo o que muda, ou nasce, foi gestado antes. Nada acontece do dia para a noite — ou vice-versa. Minha lentidão cognitiva e consciente é que tardou a perceber o que o inconsciente bradava há tempos.

Freud, Freud, por que me persegues?!

Tenho mudado. Minha alma muda sempre. Felizmente. Aos poucos, ou de vez, aprendo a lidar comigo, com minha insensatez e com a minha responsabilidade em ser assim — meio ingênua, meio infantil, insensata, um pouco (ou muito) fora da curva da normalidade.

Nas minhas conversas solitárias com Koll, o endiabrado Shitzu, apontamos — eu e ele — que o mundo também se metamorfoseia, agora mais aparentemente que antes.

Temos um genocídio em curso. Temos uma desigualdade social intra e extra nacional de proporções gigantescas. Tão gigantesca que se faz necessário comemorar termos saído do mapa da fome. A mesma fome que campeia lá fora e que se transformou em arma de guerra.

Ah! Não é “isso” a metamorfose.

A metamorfose está na nossa saída do estado de passividade e aceitação do “destino” a que fomos incentivados e habituados.

Li também — aqui mesmo, na internet — que já podemos pensar numa nova forma de desigualdade: a desigualdade cognitiva. Estamos deixando que as crianças de agora sofram a mais severa lavagem cerebral e a mais perigosa forma de condicionamento cognitivo.

Nos idos de 1970/80, o vilão contra o qual lutávamos eram as escolas e suas formas perversas de educação. Nos anos 90, era a televisão e seus programas infantis. Hoje é o mundo virtual. Um mundo que foi jogado no nosso colo, sem que estivéssemos preparados.

Agora é correr — eu e o mundo — atrás do prejuízo.

E por falar em prejuízo, é melhor eu ir logo desligar o fogo pra não queimar o feijão.

Fui…

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