Crônica sobre as imagens que projetamos — e chamamos de realidade
Comecei a pensar sobre essas coisas há algum tempo.
Foi quando me dei conta de que, muitas vezes, a pessoa amada não é a mesma para todos os que a amam.
Não sei se me faço entender, mas, por exemplo: o pai que eu amo não é o mesmo pai das minhas irmãs — embora seja o mesmo sujeito. E por aí vai. O mesmo acontece com todos, pelo menos é o que penso.
No meio dessas elucubrações, fui ver Persona, de Bergman, e me chamou a atenção a forma como ele entrelaça Alma e Elisabeth, confundindo-as diante de nossos olhos. Quem é quem? Quem permanece? Alma ou Elisabeth?
Lembrei também de uma conversa em família sobre os amores entranhados de uns para com outros.
Claro que, entre uma coisa e outra, houve um bom intervalo de tempo.
Mas, juntando tudo — uma crença e outra, uma percepção e outra — resolvi abrir o pensamento e tentar entender melhor a questão.
Na época da conversa, cheguei a pensar que falávamos de pessoas diferentes. Não daquela tão conhecida e tão próxima.
Em outros momentos, conferi como outro familiar via essa mesma pessoa.
Rememorei falas de mais alguém, igualmente íntimo.
Resultado? As versões não batiam. Nem com a minha percepção, nem com a de ninguém.
Fiquei, assim, com quatro personas distintas associadas ao mesmo vivente.
Mesmo tendo passado um bom tempo às voltas com Jung — arquétipos, sombras e complexos — e com a neuropsicologia — sentidos, percepção e realidade — não havia me dado conta de que a realidade dos amores era mais complexa do que imaginava minha santa inocência.
Mas aí veio Bergman, com sua inquietante narrativa, e eu literalmente caí do cavalo das certezas, pensando furiosamente, confusa e inquieta.
— Valha-me São Ingmar! O que, ou a quem, amo? Onde está o ser real, o ser-em-si que amo? Mesmo depois de conviver cinquenta anos com alguém, teria amado apenas uma imagem? Nunca o ser-em-si?
Lembro, então, das aulas de neuropsicologia e das conclusões a que cheguei.
O real, para mim, é minha percepção do real.
Pessoal e intransferível, generalizado pela palavra.
Não tenho como acessar o ser-em-si a não ser por meio das minhas percepções — que podem ser mais ou menos acuradas, melhor ou pior decodificadas e compreendidas.
E isso sempre dependerá de condições minhas, intrinsecamente minhas.
Já fazia tempo que eu havia concluído, em conversa com meus botões, que aquilo que entendo como “mundo externo” talvez não seja tão externo assim.
Mas ainda não havia pensado nas consequências disso no campo das emoções e dos sentimentos.
Concluo, então, que o que amamos é a imagem que temos do outro — e não o outro em si.
Porque esse, o ser-em-si, é inacessível.
É bem nessa hora que percebo outra ponta de inquietação me verrumando o cérebro.
Se o outro é uma imagem que faço dele, o que sou eu para mim?
Imagens também?
Claro! — me sopra Alma ao ouvido — você é a soma de imagens:
a que faz de si mesma, superposta às que acredita serem as que os outros fazem de você,
sombreadas pelas que os outros esperam de você.
É isso: vivemos entre espectros de imagens. E talvez seja, afinal, o mais próximo que chegamos da realidade.

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