Cotidiano & memória

Faz um bom tempo, encontrei a dita mulher.

E nem mesmo sei por que a pessoa me veio à mente. Talvez tenha sido por conta de um vídeo que vi pela manhã. Sei lá! Coisas que acontecem. Uma imagem que traz uma memória, que produz um sentir — e lá vou eu, pensando e pensando e pensando.

Então, foi isso.

Como estava dizendo, há um tempo atrás encontrei a dita mulher.

Eu estava muito na minha, na cozinha da minha prima, jogando conversa fora, quando ela entrou com a amiga — ambas já bem mamadas, com garrafinhas de uísque e cubinhos de água de coco.

Era Carnaval.

Pelo menos me pareceu, pela conversa, que o uísque estava rolando há um bom tempo. Na verdade, a conversa foi mais um monólogo, com ela postada na minha frente, falando sem pausas.

E eu? Olhava, admirada, a verruga escura do lábio superior, que subia e descia ao abrir e fechar da boca.

Enquanto ouvia e inclinava a cabeça em concordância, pensei que a coisa toda tinha muito a ver com o ciúme doentio que ela sentia do marido — meu namorado por um bom tempo. Na minha plena adolescência, diga-se de passagem.

Haviam-se passado, miseravelmente, 45 anos.

Quando ela começou a falar sobre o amor à primeira vista que desabrochou entre ela e o marido, eu me desliguei mais e comecei a divagar sobre a qualidade do amor romântico, e sobre os mitos que ainda recobrem as relações amorosas.

Se antes só havia me tocado uma ligeira irritação pelo absurdo de tudo, imaginei o discurso sendo treinado durante a ida de carro até onde eu estava. A crescente ira que precisava ser contida na presença de amigas comuns.

Deu dó.

Nem quis, apesar de achar propícia a ocasião, iniciar uma discussão sobre a questão do amor à primeira vista, enfatizando sua impossibilidade.

Tenho claro que amor romântico é mesmo uma construção moderna. Não é, portanto, uma verdade em si. Além disso, amar alguém pressupõe conhecer. Não dá pra amar quem não se conhece.

Adolescentes discordam, bem sei. Também fui uma.

Pensei em ponderar que, à primeira vista, o que ocorre é atração sexual — e aí intervêm diversos mecanismos físicos: o cheiro do outro, que não se confunde com a loção ou o desodorante; o perfil físico que materializa um ideal prévio de masculinidade ou feminilidade; e um ou outro detalhe que remete à figura masculina ou feminina proeminente da infância/adolescência, seja no sentido amoroso, seja no sentido aversivo. E os hormônios, claro — liga e parênteses de toda essa equação.

(Abre parênteses: já falei que a dita mulher se parece comigo? Não? Pois é. É voz corrente. Ato falho do namorado que tive. Fecha parênteses.)

O amor vem depois. Ou não vem.

Quanto ao ciúme, no momento achei que era uma bobagem.

Continuo achando.

Imagino que seja o resultado da insegurança adolescente, mantida e continuadamente regada pelo senso de fracasso pessoal, que normalmente se compensa com a supervalorização do outro componente da relação. No caso, o elemento masculino.

Lembrei então da questão da fidelidade, tão enfatizada e celebrada: “prometo ser fiel, etc…”. Mas o que é mesmo a fidelidade? Fidelidade no amor? Como alguém pode garantir que vai amar indefinidamente a mesma pessoa? Fidelidade sexual? Quem garante que o ato não está sendo compartilhado em pensamento com outros?

E pra fechar toda a reflexão, lembrei que, para muitas mulheres, o “estar casada”, ter um amor recíproco “por toda a vida” — mesmo que ilusório — tem um significado muito maior que a conquista de seu próprio espaço e a descoberta de seu próprio poder.

Na verdade, é um substitutivo que garante a submissão das mulheres a um modelo patriarcal de relações, onde a liberdade é restrita, o desejo é podado e a construção de si mesma uma mentira.

No dia seguinte, soube que ela não tinha vindo para o Carnaval porque o marido proibiu.

Foi bom ter ficado calada.

com bons argumentos de preferencia! Não fique aí parade! Critique, ou elogie, se for o caso. Ou comece uma discussão.